Nesta época, a fonoaudiologia no Brasil era sonho. E, os
responsáveis pela educação dos surdos eram professores, sem educação
especializada. Mas foi o sonho que me levou aos bancos da PUC de São Paulo e, em
1970, como uma aluna com sede de respostas.
Entretanto, as respostas, ao contrário do que esperamos quando jovens,
demoram muito. E a maturidade vem mostrando que muitas ficam pendentes pela
vida, para que outras pessoas interessadas nas mesmas questões e na mesma área
dêem continuidade a um caminho percorrido.
Mas, a vida cruza interesses, pessoas e continentes quando não se espera,
mas se crê. Em 1971, quando médicos da área de otorrinolaringologia e da
neuro-pediatria retornavam de outros países, com formação em pós-doutorado
para diagnosticar crianças pequenas, através de exames objetivos que o
conhecimento e a tecnologia da época permitiam, aqui chegavam, mas não haviam
profissionais na área de fonoaudiologia capacitados a trabalhar com crianças
surdas pequenas.
Ao mesmo tempo, nos Estado Unidos, Suécia, Dinamarca e na Inglaterra, na
área de reabilitação carregavam a bandeira do ainda desconhecido “diagnóstico
precoce” e publicavam seus primeiros livros. Mas isto já é História, pois
naquela década (70), diagnosticar e reabilitar uma criança com perda de
audição era considerado precoce entre os 18 e 24 meses.
E foi o que ocorreu aqui. Era fantástico ver uma criança diagnosticada por
exemplo aos 20 meses. E o que fazer com ela? Que serviços de atendimento
mostrar aos pais para reeducarem seus filhos? Havia muito pouco ou quase nada. A
força, o movimento da busca, as coincidências permitiram os primeiros passos,
ao que hoje, trinta anos depois estamos continuando.
Livros de autores famosos na área de audiologia, alguns atuantes com mais
força, aqui chegaram. Mostraram o resultado de propostas de reabilitação em crianças
pequenas, alguns seus parentes com ótimos resultados. Cabe esclarecer, que
estes autores iniciaram em suas terras distantes, propostas no final da década
de 50 e começo da década de 60.
O que mostravam? Que iniciada a reabilitação da audição, linguagem e fala
o mais cedo possível, em crianças surdas ou deficientes auditivas, a defasagem
na aquisição das funções citadas, seria diminuída, quando comparada com crianças
ouvintes da mesma idade cronológica.
E como?
Foi possível? Sim, em vários casos, pois estudava-se os autores varando
noites e a dedicação aos pacientes, suas famílias, incluindo visitas ao lar
era intensa. Para encher um lar de uma rica atmosfera auditiva e lingüística
era dogma.
Os pais aprendiam, como até hoje, que a criança que não tem audição normal,
tem que ouvir em voz mais intensa, usada mais perto do ouvido, muitas vezes por
dia, vendo, com os olhos também, como é a sua rotina, o nome das pessoas importantes,
vozes de animais, ouvir música, barulho do carro, nome dos brinquedos ...
Além disso, tornar barulho de água e de eletrodomésticos, instrumentos de
estimulação agradável. Não é do liquidificador que sai um suco gostoso e
da água do quintal um banho de mangueira? E eles não tem som? E som não tem significado?
Bem, não são novidades as informações passadas, não para a mamãe que
tem seu bebê ouvinte, normal. Ela faz intuitivamente tudo isto, a partir do
nascimento, na mesma hora. Ela conta que ama o bebê, que vai trocar a fralda,
que está na hora de nanar e conta uma linda história. O bebê bem pequeno
responde. Ele olha, vira a cabecinha, sorri, levanta os bracinhos, depois vai
balbuciar e mostra a mamãe que ele ouviu.
Mas quando o bebê não escuta, a mamãe faz a mesma coisa e o bebê não
responde igual. Da mesma forma que uma criança ou um adulto sem resposta pára
de fazer uma atividade por falta de estímulo, quando um bebê não responde, a
mamãe sem perceber vai parando de estimular, de conversar, de contar. Então,
nosso papel após o diagnóstico é dar força aos pais e mostrar-lhes que eles
vão ter que voltar a fazer algo que sabem muito bem, para o ser que eles mais
amam e conhecem, seu filho pequeno.
Isto é novo? Claro que não. Vamos pensar no que vem mudando nesses quase
trinta anos. Sabemos tudo? Não, mas estudamos mais e o mundo se tornou pequeno
para que haja troca de conhecimento, experiências e questionamentos. Os autores
famosos são hoje amigos e grandes colaboradores. E no nosso BRASIL, já há
centros de referência reconhecidos em vários países.
Porque os anos passaram e o nosso cartão de visitas são os resultados obtidos
em nossos pacientes e uma vida melhor para suas famílias. Quando é possível diagnosticar
perdas auditivas hoje? É possível, através de equipamentos e tecnologia
apropriada, perceber pela prática de bons profissionais desde a maternidade.
Fecha-se o diagnóstico? Não, mas se o bebê não respondeu adequadamente a
determinada intensidade, ao redor de 35-40 dBNA (nível de audição) ele é
retestado após duas semanas. Não passou? Vai ser encaminhado para um
otorrinolaringologista, que é o profissional capacitado e especializado em
fazer uma avaliação completa.
Antes dos 3 meses de idade o diagnóstico pode e deve ficar fechado, para que
crianças sejam hoje beneficiadas por processos de reabilitação na hora certa
e que sua mamãe e seu papai não passem pela fase de muita angústia que é a
de perceber que o bebê não reage, muitas vezes sem saber o motivo e parando
gradativamente de contar o que acontece ao redor da criança, neste mundo novo
que ela habita e não entende.
Vamos trazer agora algumas informações muito importantes. A perda de audição
severa e profunda é a segunda mais freqüente deficiência congênita nos países
considerados desenvolvidos. Quando se incluem perdas auditivas leves e moderadas
é a deficiência mais comum no recém-nascido. Está presente em 1 a 3 de cada
1.000 (mil) nascimentos e em 2 a 4 bebês que permanecem em UTI.
Atualmente a idade média de detecção de perdas auditivas significativas é
de 14 meses (1999). A meta por enquanto, da Academia Americana de Pediatria, de
Audiologia e do Joint Committee on Infant Hearing para o ano 2000, é que as deficiências
de audição sejam detectadas antes dos 3 meses e os procedimentos de reabilitação,
orientação familiar e colocação de próteses auditivas (aparelhos) não
ultrapassem os 6 meses.
E por que é tão crítico este período? Por motivos orgânicos, funcionais
e cognitivos o ser humano é programado para desenvolver a fala e a linguagem entre
o nascimento e a idade de 2 anos. Mesmo perdas moderadas levam a sérios efeitos
no processo de desenvolvimento da fala, linguagem e cognição.
Cognição está presente desde o berço. Não é conhecimento escolar,
mostra-se na habilidade de uma criança brincar. Brincar começa com a vida na
relação do bebê com a mãe. Quando vamos ao parque e assistimos crianças
brincando na areia, fazendo bolo ou empurrando carrinhos, elas além de brincar
estão usando a cognição para representação de seu mundo interno. É lindo
de ver! É triste de pensar que a criança que não pode ouvir desde o
nascimento ficará privada desta maravilha e outras funções na vida se não
for auxiliada cedo.
Fica aqui a mensagem: Temos a obrigação e o dever de prevenir, diagnosticar
e educar para mais tarde termos pessoas adultas que possam vencer barreiras, que
as deficiências auditivas trazem e tornar-se cidadãos úteis, independentes,
integrados e se possível mais felizes.
São Paulo, 1999
Anna Maria Amaral Roslyng-Jensen