Verônica e seu filho Otávio, de três anos :
exames comprovaram o problema auditivo e tratamento começou aos quatro meses de idade.

Aparelho ajuda,
mas até novembro Otávio receberá o implante coclear.


 


 

"Giullia usou aparelho auditivo até os 4 anos, mas ele não estava sendo mais eficaz. Foi quando fizemos o implante coclear e ela passou a ouvir. Quando Giullia me chamou de mãe pela primeira vez, aos 6 anos, foi uma emoção sem igual. Foi maravilhoso ouvir aquela palavra"

Mônica Bardella Garcia, administradora de empresas

A menina Giullia, de 9 anos, e sua mãe Mônica:
palavra mãe só foi pronunciada claramente aos seis anos

 

 

A administradora de empresas Mônica Bardella Garcia só foi chamada de mãe pela primeira vez quando Giullia fez 6 anos. Antes, a menina apenas balbuciava algumas palavras. Mesmo assim, confusas. A dificuldade de Giullia em falar foi decorrência de uma perda auditiva, descoberta quando ela estava com um ano. Exatamente a idade do menino Otávio. Sua mãe, a técnica judiciária Verônica Castro Soares, descobriu, ainda na maternidade, que ele tinha deficiência auditiva. Giullia e Otávio são duas das três crianças em cada mil que nascem com déficit de audição.

De acordo com especialistas, a perda auditiva na infância pode ter várias causas: pré-natais (adquiridas durante a gestação), desordens genéticas, consangüinidade, doenças infecto-contagiosas, uso de medicamentos ototóxicos (uso inadequado de antibiótico), de drogas ilícitas ou de álcool pela mãe, desnutrição ou carência alimentar materna, hipertensão ou diabetes durante a gestação, condições relacionadas ao fator RH e exposição a radiação.

"Tive problema de saúde na gravidez e Otávio nasceu prematuro. O médico achava que sua audição havia sido comprometida por causa disso. Fizemos o teste da orelhinha e ele não respondeu ao estímulo. Outros exames comprovaram o problema auditivo. Ainda bem que o detectamos cedo. Aos quatro meses, Otávio iniciou tratamento com uma fonoaudióloga", disse Verônica.

Precauções – Para evitar que o número de crianças com deficiência auditiva aumente, especialistas são unânimes em dizer que mulheres grávidas devem evitar o cigarro, as drogas e as bebidas alcoólicas. "Quando a perda auditiva se dá por causa de secreções ou perfuração do tímpano, o tratamento clínico é mais fácil. Mas existem outros fatores, associados ao uso dessas substâncias tóxicas, que dificultam o tratamento. Nesses casos, o dano auditivo pode ser irreversível", disse o médico otorrinolaringologista Marcelo Hueb, coordenador nacional da campanha de saúde auditiva e diretor da Associação Brasileira de Otorrinolaringologistas.

O grau de perda auditiva varia de acordo com o limiar tonal (audição), que vai de 15 a 30 dBNA (nas deficiências leves) ou superior a 90 dBNA (nas deficiências profundas). No caso de Giullia, aos 4 anos, depois de um implante coclear (estímulo elétrico aplicado diretamente nas fibras do nervo auditivo por meio de eletrodos em pacientes com danos no ouvido interno), ela passou a escutar mais, evoluindo para uma deficiência leve em um dos ouvidos. E passou a falar melhor.

Desinformação – "Só descobri que Giullia não escutava nada quando ela já estava com um ano de idade. O começo foi difícil por causa da falta de informação. Não sabia o que fazer nem para onde ir. O mundo caiu para mim. A Giullia usou aparelho auditivo até os 4 anos, mas ele não estava sendo mais eficaz. Foi quando fizemos o implante coclear e ela passou a ouvir. Quando Giullia me chamou de mãe pela primeira vez, aos 6 anos, foi uma emoção sem igual. Foi maravilhoso ouvir aquela palavra", disse Mônica.

Verônica também programa o implante coclear para Otávio. A cirurgia deverá acontecer até novembro. "Antes de colocar o aparelho, ele era uma criança apática, quieta. Agora, com o aparelho, ele está muito mais animado, agitado. Com o implante ficará ainda melhor. Queremos que ele ouça, fale, se desenvolva e se relacione com outras crianças" disse.

Prevenção – Para detectar a deficiência auditiva, o primeiro passo é fazer o teste da orelhinha ou triagem auditiva neonatal, mesmo para bebês que não têm casos de surdez na família ou que a mãe não teve problemas na gestação ou no parto. O teste é simples e não causa desconforto, de acordo com Hueb. "O exame é bem tranqüilo. É realizado com a criança dormindo. Um aparelho pequeno com uma sonda veda o canal do ouvido e emite um som em várias freqüências. A resposta a esses ruídos é captada novamente pelo aparelho", explicou o médico.

Segundo Hueb, esses exames são feitos na própria maternidade. Em alguns Estados o exame é obrigatório. Quando não realizado no hospital, os pais podem procurar um médico otorrinolaringologista para fazê-lo. O preço não é muito alto. Em Minas Gerais, onde o médico trabalha, o custo é de R$ 70.

"Primeiro é preciso avaliar o grau da perda da audição, buscar suas causas e começar o tratamento com o aparelho auditivo. Quanto mais cedo é realizado esse teste, melhor. Quando a criança é atendida logo, ficam treinadas para conviver de igual para igual com outras crianças", disse o fonoaudiólogo Fernando Caggiano Junior.