|
A administradora de empresas Mônica
Bardella Garcia só foi chamada de mãe pela primeira vez quando Giullia fez 6
anos. Antes, a menina apenas balbuciava algumas palavras. Mesmo assim,
confusas. A dificuldade de Giullia em falar foi decorrência de uma perda
auditiva, descoberta quando ela estava com um ano. Exatamente a idade do
menino Otávio. Sua mãe, a técnica judiciária Verônica Castro Soares,
descobriu, ainda na maternidade, que ele tinha deficiência auditiva. Giullia
e Otávio são duas das três crianças em cada mil que nascem com déficit de
audição.
De acordo com especialistas, a perda auditiva na infância pode ter várias
causas: pré-natais (adquiridas durante a gestação), desordens genéticas,
consangüinidade, doenças infecto-contagiosas, uso de medicamentos ototóxicos
(uso inadequado de antibiótico), de drogas ilícitas ou de álcool pela mãe,
desnutrição ou carência alimentar materna, hipertensão ou diabetes durante a
gestação, condições relacionadas ao fator RH e exposição a radiação.
"Tive problema de saúde na gravidez e Otávio nasceu prematuro. O médico
achava que sua audição havia sido comprometida por causa disso. Fizemos o
teste da orelhinha e ele não respondeu ao estímulo. Outros exames
comprovaram o problema auditivo. Ainda bem que o detectamos cedo. Aos quatro
meses, Otávio iniciou tratamento com uma fonoaudióloga", disse Verônica.
Precauções – Para evitar que o número de crianças com deficiência
auditiva aumente, especialistas são unânimes em dizer que mulheres grávidas
devem evitar o cigarro, as drogas e as bebidas alcoólicas. "Quando a perda
auditiva se dá por causa de secreções ou perfuração do tímpano, o tratamento
clínico é mais fácil. Mas existem outros fatores, associados ao uso dessas
substâncias tóxicas, que dificultam o tratamento. Nesses casos, o dano
auditivo pode ser irreversível", disse o médico otorrinolaringologista
Marcelo Hueb, coordenador nacional da campanha de saúde auditiva e diretor
da Associação Brasileira de Otorrinolaringologistas.
O grau de perda auditiva varia de acordo com o limiar tonal (audição), que
vai de 15 a 30 dBNA (nas deficiências leves) ou superior a 90 dBNA (nas
deficiências profundas). No caso de Giullia, aos 4 anos, depois de um
implante coclear (estímulo elétrico aplicado diretamente nas fibras do nervo
auditivo por meio de eletrodos em pacientes com danos no ouvido interno),
ela passou a escutar mais, evoluindo para uma deficiência leve em um dos
ouvidos. E passou a falar melhor.
Desinformação – "Só descobri que Giullia não escutava nada quando ela
já estava com um ano de idade. O começo foi difícil por causa da falta de
informação. Não sabia o que fazer nem para onde ir. O mundo caiu para mim. A
Giullia usou aparelho auditivo até os 4 anos, mas ele não estava sendo mais
eficaz. Foi quando fizemos o implante coclear e ela passou a ouvir. Quando
Giullia me chamou de mãe pela primeira vez, aos 6 anos, foi uma emoção sem
igual. Foi maravilhoso ouvir aquela palavra", disse Mônica.
Verônica também programa o implante coclear para Otávio. A cirurgia deverá
acontecer até novembro. "Antes de colocar o aparelho, ele era uma criança
apática, quieta. Agora, com o aparelho, ele está muito mais animado,
agitado. Com o implante ficará ainda melhor. Queremos que ele ouça, fale, se
desenvolva e se relacione com outras crianças" disse.
Prevenção – Para detectar a deficiência auditiva, o primeiro passo é
fazer o teste da orelhinha ou triagem auditiva neonatal, mesmo para bebês
que não têm casos de surdez na família ou que a mãe não teve problemas na
gestação ou no parto. O teste é simples e não causa desconforto, de acordo
com Hueb. "O exame é bem tranqüilo. É realizado com a criança dormindo. Um
aparelho pequeno com uma sonda veda o canal do ouvido e emite um som em
várias freqüências. A resposta a esses ruídos é captada novamente pelo
aparelho", explicou o médico.
Segundo Hueb, esses exames são feitos na própria maternidade. Em alguns
Estados o exame é obrigatório. Quando não realizado no hospital, os pais
podem procurar um médico otorrinolaringologista para fazê-lo. O preço não é
muito alto. Em Minas Gerais, onde o médico trabalha, o custo é de R$ 70.
"Primeiro é preciso avaliar o grau da perda da audição, buscar suas causas e
começar o tratamento com o aparelho auditivo. Quanto mais cedo é realizado
esse teste, melhor. Quando a criança é atendida logo, ficam treinadas para
conviver de igual para igual com outras crianças", disse o fonoaudiólogo
Fernando Caggiano Junior. |